Exclusivo: Desabafo de um Micareteiro sobre os "Camarotes" do Carnaval de Salvador



Eu poderia até dizer que Ivete Sangalo me decepcionou. Isso se eu esperasse que ela realmente fizesse um Carnaval para o povo. Mas minhas esperanças sobre isso acabaram há dois anos quando presenciei, em uma entrevista coletiva, ela ser questionada se um dia baixaria suas cordas e responder: “Quando der vontade. Não preciso. Meu bloco está lotado”.

Este ano ela anuncia que, assim como Bell da Bandana, ex-Chiclete com Banana, fará seu Carnaval dentro de um camarote particular. (De sua empresa, diga-se de passagem). E a festa será restrita para quem tiver condições de desembolsar R$700 em um único dia da folia. Essa questão me fez pensar um pouco sobre o Carnaval e essa indústria dos Camarotes. Bom... para início de conversa, acho que frequento assiduamente (e sem faltas) o Carnaval de Salvador há mais de onze anos. Vi o furacão loiro Márcia Freire arrastar o Cheiro de Amor, Netinho ser eleito o artista do ano ao som de “Mila”, Gilmelândia lotar o Bloco Beijo e Ivete Sangalo, até então conhecida como “a vocalista da Banda Eva”, embalar a Avenida.

De lá pra cá, os Camarotes se profissionalizaram. Ganharam glamour e destaque, ofereceram open bar de Absolut, serviço de buffet do Soho e Bartô, massagem, salão de beleza, cinema, jogos de búzios, cartomante, além de shows privados como Seu Jorge e David Guetta.

Camarotes podem ter tudo, menos Carnaval. Que me desculpem os mais refinados, mas aquele ‘fru fru’ de vips bem vestidos, desfilando suas taças de espumante não tem absolutamente nada a ver com a festa, não chega nem ao chulé. Chulé das ruas, que mistura chuva, suor e cerveja, que tem o diabo no quadril, o toque do agogô e mil outras coisas indescritíveis que só quem foi pro Carnaval de Salvador conhece.

Basta alguém iniciar uma conversa com a temida frase “Aaah, te vi no Carnaval...”, que é o suficiente para eu me afastar, agradecer, desconversar e dar um tchau bem corrido. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Vou pra rua, pro chão mesmo, passo pelos Mascarados, vejo Daniela Mercury em seu trio independente, curto Saulo Fernandes, me sinto o mais negão da Bahia no meio da Timbalada, dou a volta no trio com Brown, vejo Armandinho no Fubicão, danço marchinhas que não são do meu tempo, meu coração bate no ritmo do Olodum e vejo Margareth Menezes misturar os faraós do Egito com os caboclos da Bahia em um mesmo refrão.

Carnaval é da rua, é da gente. É acordar meio dia porque tem uma feijoada, dobradinha ou sarapatel para comer na casa de Dona Maria. É calçar aquele tênis sujo de mijo e cerveja por sete dias até largar o solado no meio da avenida no último dia de festa. É querer tomar o máximo de piriguetes possíveis (sem machismos, me refiro aqui à cerveja). É sentir cheiro de maluco do seu lado, conhecer gente que já está pra lá de Bragadá. É liberar a viadagem que há dentro de você e se vestir de mulher sem a menor vergonha de qualquer coisa que seja. E assim a gente se completa, enchendo de alegria, a praça e o poeta.

Me pergunto se do alto dos camarotes as pessoas sabem o que é ter uma paixão de Carnaval. Aquela que tem validade de sete dias e um pacto de fidelidade que não funcionaria em nenhuma outra situação.

Pois é, Ivete... Pode ir com Bell e sua turma para os camarotes fazer show “para gringo ver”. Já eu vou atrás do trio elétrico, dançar ao negro toque do agogô, curtindo minha baianidade nagô. E assim passamos muito bem, obrigado.
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